Photo by S O C I A L . C U T on Unsplash

“In the end, we’ll all become stories.”
Margaret Atwood

Nesta série de textos, compartilhamos frameworks, referências e inspirações para empreendedoras e empreendedores que desejam masterizar sua habilidade de storytelling ao contar histórias que atraem, inspiram e constroem novas alternativas de futuro.

Elas criam cultura, esculpem mindsets e, de forma única, sustentam círculos de confiança. As narrativas são a construção humana mais próxima de uma máquina do tempo. Envisionam o futuro e explicam o passado. Criam mundos com tinta no papel. Vendem sonhos com palavras. Constroem o futuro pela ficção.

Isso porque nós somos seres de significados. E as histórias nos…


Photo by Nong Vang on Unsplash

Foi-se um gritar em silêncio. De máscaras, todos marchavam. Andavam, convictos de que chegariam do outro lado, na outra margem. Parecia um Carnaval fora de época, no qual alguém, distraído, sentou no controle remoto e tudo ficou mudo.

A marcha não caminhava, na contramão do esperado, de mãos dadas com o silêncio. Longe disso. Os olhares diziam tudo, até o que as palavras não eram capazes de traduzir. Sobrancelhas cheias de opinião tratavam logo de acender centelha em fogo de palha. Bastava uma levantada torta de lado e outra logo retribuía. …


Photo by Quaid Lagan on Unsplash

No início, era potência. Reflexo de si mesma, espelho de mais ninguém. Forjada pelo fogo, porém, caiu em moldes alheios. Ganhou forma, fundo, gargalo. Caminhou pelo mundo sob esteiras e caminhões.

Quando tudo poderia, ela foi uma garrafa.

Ao fundo de si nada restava. Esvaziada, seria descartada. Consumida até a última gota, não sobrevivia a nenhuma utilidade. No caminho da reciclagem, atirou-se no chão. Escolheu os estilhaços a uma vida de garrafa.

Quebrou.

Quando os olhos se abriram, tudo era vidraça. A paisagem à sua frente, majestosa. Sentia o sol lhe atravessar formando arco-íris no chão. Se embebia da chuva…


Photo by Trollinho on Unsplash

Era uma gotícula de incomparável personalidade. Chamava-se Goti. Vejo em seu rosto a preocupação. Não, não corra para decorar os nomes de toda a chuvarada. Goti se batizou sozinha mergulhando em água benta. Nenhuma de suas colegas jamais se importou em ter um nome.

Mas Goti era audaz. Sabia que a vida era mais do que um pingar sem intenção. Buscava seu propósito. Acreditava um dia encontrar sua razão de gotejar no mundo. …


Photo by Devon Daniel on Unsplash

Cresceu com os pés na areia. Aprendeu a contar com as conchinhas do mar. Não precisava de muito para fazer uma manhã. Apenas alguns moldes de imaginação e castelinhos de modelar.

As palavras, no entanto, ainda eram bagunçadas no seu falar. Foi peça pregada pelo primo mais velho, quando ela aprendia o beabá. Ele trocou de lugar alguns significados, mas Mia nunca reaprendeu onde cada palavra deveria estar.

Chamava o mar de imensidão, o horizonte de futuro e o céu de infinito.

Sua melhor amiga, sem saber do nome de registro, atendeu por baleia desde o primeiro encontro. Baleia pousava…


Photo by Inge Maria on Unsplash

O primeiro trovão ressoava longe, enganando a hora que a chuva demoraria a cair. Luz saiu de casa de vestido florido e sandálias abertas, confiante no sol ardido do almoço. A menina já estava acostumada a planejar passeios com o céu, mas ainda era jovem para saber que, mesmo confiando no sol, são as nuvens que surpreendem.

Foi, então, que aconteceu. Mergulhada em seus pensamentos, só acordou do sonho de olhos abertos quando a primeira gota tocou a ponta de seu nariz. …


Photo by Dan-Cristian Pădureț on Unsplash

Descobriu-se em pedaços.
Ela que sempre se enxergou inteira, nunca pela metade.

Nunca soube o que era molhar os pés ao entrar no mar.
Se entrava, era para mergulhar até o fundo.

O divórcio, no entanto, quebrou uma parte de si.

O eu-e-você passou a ser eu-e-ele.
Essa foi a primeira ruptura.

Revisitar o passado estilhaçou a imagem que ela tinha de si mesma.
Essa foi a segunda.

Por fim, separar, entre os caquinhos, o que era seu e o que era do outro.
Essa foi a terceira ruptura.

Olhou para os reflexos do chão perguntando se algo dali ainda…


Photo by Annie Spratt on Unsplash

Era dessas histórias que quem viu não pode provar, e quem ouviu escolheu acreditar. Por boa-fé, agrado ou diversão. Aconteceu há muito tempo, numa cidadezinha sem importância, no interior de algum lugar.

Chamava-se Amélie.

De palavras ocas, se comunicava somente com as duas bolinhas de gude que levava nos buraquinhos dos olhos. Todos os médicos de algum lugar, porém, conheciam a história da menina de olhos grandes que nada falava.

Sua mãe fez de tudo para que Amélie aumentasse o apetite pelas palavras. Não achava bom criança que cresce em jejum de fala. Experimentou todos os tratamentos, dos mais tradicionais…


Photo by Josh Hild on Unsplash

Na cidade de Aeternum, ninguém conhecia o fim.

Os dias eram uma sucessão de recomeços. Assim como ondas fortes, mal esperavam retomar o fôlego para se repetirem, se afogarem. A cidade existia em aberto. Nada se encerrava, nem mesmo as sentenças. Na gramática de Aeternum, só havia reticências.

Mesmo aqueles de âncora no pé não tinham o direito de se deitar no chão do oceano. Quando um ferimento, infortúnio ou flagelo fosse motivo de concluir qualquer estar, os moradores de Aeternum renasciam no dia seguinte em novo corpo de funcionalidades semelhantes, apesar de outro desenho.

Nesta cidade, cresceu Ana.

Ana…


Foto de Vinicius Pontes no Pexels

Antonio Marcondes não pôde realizar seu concerto naquele dia.

Mas não foi a distância que o impediu. Depois de três dias na estrada, atravessando chão de asfalto, pedra e terra batida, o tenor chegou ao município de Fallarás. Não foi também a falta de vontade que cancelou o show. Aprendera com seu pai — aspirante a escritor e fiscal da Receita por 25 anos — como reagir com emoções protocolares quando a alma não está no que faz.

Não, o que afastou Antonio Marcondes da grande estreia foi obra de grandeza maior.

Naquela manhã, ninguém em Fallarás podia ser ouvido.

Laís Grilletti

Escritora e contadora de histórias, autora do livro Minu e a cidade sem tempo. Escreve histórias infantis que, vez ou outra, caem nas mãos dos adultos.

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